domingo, 1 de novembro de 2026

PITANGUY FOOTBALL CLUB

ESPORTE EM PITANGUI MG

Um marco na história esportiva de Pitangui em 1923

Em 1923, Pitangui viveu um acontecimento marcante em sua história esportiva: a inauguração do campo do Pitanguy Football Club, situado no lugar conhecido como Chapadão. O evento reuniu jogadores, dirigentes, convidados e um expressivo público, revelando a importância que o futebol começava a conquistar na vida social das cidades do Centro-Oeste mineiro.

A memória dessa inauguração é um precioso registro fotográfico histórico, cujo acervo original pertence ao IHP – Instituto Histórico de Pitangui. A imagem registra o encontro entre o Pitanguy F.C. e o União F.C., de Divinópolis, e constitui um documento de grande valor para a preservação da memória esportiva e cultural do município.

A fotografia apresenta uma vista panorâmica do campo, com os jogadores reunidos e uma numerosa multidão distribuída ao longo das laterais. Ao fundo, destaca-se uma estrutura elevada, semelhante a um pavilhão, também ocupada por espectadores.

Muitos aparecem portando guarda-chuvas, enquanto homens de paletó, chapéu e gravata, mulheres com vestidos longos e crianças compõem o público que acompanhava aquele momento.

Nesta imagem, mais próxima das equipes, é possível observar os jogadores reunidos para o registro fotográfico, vestindo uniformes brancos e listrados.

A disposição das pessoas, as vestimentas e as características do espaço esportivo oferecem um testemunho visual singular dos costumes e das formas de sociabilidade existentes em Pitangui na década de 1920.

A inauguração nas páginas de um jornal do Rio de Janeiro e uma imagem para a memória de Pitangui

A importância desse acontecimento ultrapassou os limites municipais. A inauguração do campo do Pitanguy Football Club também foi noticiada por O Jornal, periódico publicado no Rio de Janeiro. Na seção intitulada “Pitanguy (Minas Geraes)”, a publicação descreveu a festividade e registrou detalhes dos jogos, da recepção aos visitantes e das comemorações realizadas.

Segundo a reportagem, os representantes esportivos de Divinópolis foram recebidos festivamente em Pitangui. Durante a cerimônia, fizeram-se ouvir diversos oradores, entre eles Alcides Gonçalves e Sertório de Moraes, que participaram das homenagens relacionadas ao encontro esportivo.

A programação contou com duas partidas. No jogo preliminar, disputado entre o Pitanguy e o Sport Gymnasio Club, a equipe deste último venceu pelo placar de 3 a 2. O chute inaugural dessa partida foi dado pela senhorinha Yolanda Malaquias.

Já no confronto principal, entre o Pitanguy F.C. e o União F.C., de Divinópolis, o União saiu vencedor pelo placar de 4 a 2. A senhorita Elisa Saldanha foi responsável pelo chute inaugural da partida oficial.

As comemorações prosseguiram à noite, com uma soirée dançante oferecida aos visitantes no Hotel do Commercio, reunindo jovens e representantes da sociedade local. Dessa forma, a inauguração do campo não se restringiu à prática esportiva: transformou-se em uma programação festiva que articulou futebol, recepção aos visitantes e convivência social.

A realização desse encontro entre clubes de municípios vizinhos também se insere em um contexto mais amplo da história do futebol no interior mineiro. Na década de 1920, as partidas intermunicipais contribuíam para aproximar grupos esportivos, fortalecer vínculos entre localidades e construir novas formas de sociabilidade em uma região ainda marcada por características predominantemente rurais.

As fotografias preservadas pelo Instituto Histórico de Pitangui e a notícia publicada na imprensa carioca permitem recuperar diferentes dimensões desse acontecimento. De um lado, a imagem revela o espaço, os jogadores e a participação popular; de outro, o relato jornalístico registra os resultados das partidas, os nomes de participantes e a programação festiva.

Reunidos, esses documentos ajudam a compreender como o futebol se estabeleceu como prática esportiva e social em Pitangui, integrando a cidade a um circuito regional de competições e encontros. Também evidenciam a importância dos acervos históricos e da imprensa na reconstrução de episódios que, embora distantes no tempo, permanecem significativos para a memória coletiva.

Ao divulgar esse registro, o site Sertões de Minas contribui para dar visibilidade a uma página importante da história pitanguiense, valorizando o patrimônio documental e reconhecendo o papel do IHP – Instituto Histórico de Pitangui na preservação de testemunhos fundamentais sobre o passado da cidade.

 Nota de esclarecimento histórico: a divergência entre as datas documentais

A análise conjunta dos registros disponíveis sobre a inauguração do campo do Pitanguy Football Club revela uma divergência cronológica que merece ser preservada e investigada.

De um lado, temos a notícia publicada pelo jornal O Jornal, do Rio de Janeiro, em sua edição de 8 de novembro de 1923, que relata a inauguração do campo, descreve as partidas realizadas e registra os festejos promovidos em Pitangui. De outro, dispomos de um conjunto de fotografias históricas pertencente ao acervo original do IHP – Instituto Histórico de Pitangui, cuja legenda manuscrita identifica o acontecimento como ocorrido em 21 de novembro de 1923.

Essa diferença suscita uma hipótese: considerando que a notícia jornalística já anunciava a inauguração como um acontecimento realizado antes de 8 de novembro, é possível que a data registrada na legenda da fotografia contenha algum equívoco. As imagens apresentam elementos compatíveis com a descrição jornalística, especialmente a presença das equipes do Pitanguy F.C. e do União F.C., de Divinópolis, e a concentração de público em torno do campo. Esses elementos sugerem uma possível correspondência entre os registros, embora não sejam suficientes, isoladamente, para comprovar que se trata do mesmo momento.

Por rigor histórico, mantemos registradas ambas as referências: 8 de novembro de 1923, como data de publicação da notícia, e 21 de novembro de 1923, como data atribuída à fotografia. A divergência permanece em aberto e constitui uma questão relevante para futuras pesquisas, que poderão recorrer à consulta de outros periódicos, documentos institucionais e registros do acervo.

Mais do que uma dificuldade de datação, essa discrepância evidencia a importância do cruzamento de fontes e da análise crítica dos documentos na reconstrução da história de Pitangui. Até que novas evidências permitam esclarecer a questão, as duas referências devem ser preservadas, sem que a hipótese de erro seja tomada como conclusão definitiva.

Referências:

Acervo original do IHP – Instituto Histórico de Pitangui.

Fonte jornalística: O Jornal. Rio de Janeiro, edição nº 1484, quinta-feira, 8 de novembro de 1923, p. 12. Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional.

Charles Galvão de Aquino

Historiador — Registro Profissional nº 343/MG 

MAJOR GOTTO

CEMITERIO DE SANTANA - ONÇA DO PITANGUI

Uma trajetória entre a Inglaterra e Onça do Pitangui

A história do Major Harold Ralph Gotto e de sua esposa, Margaret Vernon Griffin, revela uma trajetória que atravessa diferentes países, gerações e acontecimentos históricos. A partir dos documentos reunidos, podemos reconstruir parte da vida do casal, sua origem familiar na Inglaterra e sua presença em Minas Gerais, onde a família Gotto esteve ligada à atividade mineradora e à comunidade de Onça do Pitangui.

A pesquisa reúne registros genealógicos, referências bibliográficas, notícias de jornais e fotografias de sepultamentos. Embora algumas informações ainda dependam de confirmação, esse conjunto documental permite elaborar uma narrativa inicial sobre a família.

Harold Ralph Gotto nasceu em 1868, em Hampstead, Middlesex, Inglaterra. Era filho de Edward Gotto, engenheiro e arquiteto, e Sarah Ann Porter. Seu pai construiu uma carreira ligada às obras de engenharia, ao saneamento e aos serviços públicos. Em parceria com Frederick Beesley, participou de projetos de abastecimento de água e saneamento, incluindo empreendimentos no Brasil. Em 1890, assumiu a gerência-geral da Rio de Janeiro City Improvements Company.

Essa trajetória profissional revela que a família Gotto estava inserida em um ambiente de atividades técnicas e empresariais que ultrapassavam as fronteiras britânicas.

Harold cresceu em Hampstead, onde a família residia em uma propriedade conhecida como The Logs. Segundo o artigo de Adam Yamey, Edward e Sarah tiveram oito filhos.

Em 1911, Harold residia em Somerset, na Inglaterra. As fontes consultadas ainda não permitem determinar com precisão sua ocupação nesse período, mas estabelecem uma referência importante para o acompanhamento de sua trajetória antes do casamento.

Em 1916, Harold Ralph Gotto casou-se com Margaret Vernon Griffin, em Chelsea, Londres. Margaret nasceu em 1879, em Hastings, Sussex, Inglaterra. Era filha de George Francis Griffin e Margaret Vernon Griffin, nascida em 1845. O casamento, segundo registros do portal do Family Search, ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial, quando Harold tinha aproximadamente 48 anos e Margaret, 37.

A documentação genealógica consultada identifica pelo menos um filho do casal, Thomas Francis Murly Gotto, nascido em 1917. Entretanto, outras fontes apresentam divergências quanto ao número de filhos, questão que ainda precisa ser esclarecida. A partir desse momento, a história do casal passa a se relacionar com o contexto da guerra e com a presença britânica em diferentes regiões do mundo.

Um artigo de Vladimir Cvetkovski, publicado em 2016, sobre os hospitais militares britânicos na Macedônia durante a Primeira Guerra Mundial, apresenta uma referência a Mrs. H. R. Gotto em uma relação de pessoas ligadas ao Serbian Relief Fund.

A organização britânica prestava assistência médica e humanitária à Sérvia durante o conflito. A presença do nome nessa relação constitui um indício de que a esposa do Major Gotto poderia estar vinculada às iniciativas britânicas de auxílio aos sérvios.

Entretanto, o artigo não identifica a mulher pelo nome completo nem informa qual teria sido sua participação. Por isso, não é possível afirmar, com base apenas nessa fonte, que Margaret Vernon Griffin tenha atuado diretamente na Macedônia ou na Sérvia. A referência permanece como uma pista importante para futuras investigações.

A presença da família Gotto em Onça do Pitangui, Minas Gerais

Em algum momento de sua trajetória, Harold Ralph Gotto estabeleceu-se no Brasil, onde passou a atuar como superintendente de uma mina inglesa em Onça do Pitangui, Minas Gerais. A notícia de seu falecimento, publicada no jornal Pitanguy, em julho de 1923, identifica Margaret como esposa do Major Gotto e menciona sua atuação junto à comunidade local.

Segundo o relato, Margaret dedicava-se à assistência aos enfermos, à distribuição de alimentos e medicamentos e ao cuidado com a igreja. A notícia também informa que ela faleceu em decorrência de uma pneumonia, deixando o marido e os filhos.

Essa referência permite compreender que a presença da família Gotto em Minas Gerais não se limitava à atividade econômica. Margaret também mantinha relações com a população local, participando de iniciativas de caráter religioso e assistencial.

As fotografias realizadas no Cemitério de Sant’Ana, em Onça do Pitangui, constituem um dos registros mais significativos desta pesquisa. A placa funerária de Margaret Vernon apresenta a seguinte inscrição:

Margaret Vernon Beloved wife of Major H. R. Gotto Died 9 July 1923. A tradução indica que Margaret era a amada esposa do Major H. R. Gotto e faleceu em 9 de julho de 1923.

Outra placa, localizada no mesmo cemitério, identifica Clara como filha do Major e da Sra. H. R. Gotto, registrando também seu falecimento em 9 de julho de 1923.

A coincidência das datas é um dado documental relevante. Entretanto, as fotografias não esclarecem as circunstâncias da morte de Clara, nem permitem afirmar que ela tenha falecido pela mesma causa que sua mãe. O falecimento simultâneo de mãe e filha constitui uma questão que merece investigação por meio de registros civis, paroquiais e notícias da época.

O retorno da memória familiar à Inglaterra

A história da família Griffin também pode ser reconstruída a partir de sua lápide na Inglaterra. No Hastings Cemetery and Crematorium, em Hastings, encontra-se o sepultamento de Margaret Vernon Griffin, mãe da esposa do Major Gotto.

A inscrição registra o falecimento de George Francis Griffin, em 1898, e de sua esposa, Margaret Vernon Griffin, em 24 de agosto de 1924. A lápide também menciona Marjorie, esposa do Major Gotto, falecida no Brasil em 9 de julho de 1923, aos 43 anos.

Esse registro confirma a ligação entre a família Griffin e a Inglaterra e permite distinguir duas mulheres com nomes semelhantes: Margaret Vernon Griffin, mãe, falecida em 1924, e Margaret Vernon Gotto, filha, falecida no Brasil em 1923.

Após a morte de Margaret, Harold permaneceu vivo por mais de três décadas. Os registros genealógicos consultados indicam que ele faleceu em 1957, em Exeter, Devon, Inglaterra, aos 89 anos. O índice de óbitos da Inglaterra e do País de Gales registra Harold R. Gotto em Exeter, no segundo trimestre de 1957, com idade de 89 anos. Segundo o registro do Find a Grave, Harold foi sepultado no Higher Cemetery, em Exeter.

A trajetória do Major Gotto, portanto, conecta diferentes espaços geográficos: sua infância em Hampstead, o casamento em Londres, a presença da família em Minas Gerais e os últimos anos de sua vida na Inglaterra.

Considerações

A documentação reunida permite compreender a história do Major Harold Ralph Gotto e Margaret Vernon Griffin como uma trajetória familiar marcada por deslocamentos, vínculos internacionais e relações com diferentes contextos históricos.

A origem britânica da família, a atuação profissional de Edward Gotto e a presença de Harold em Onça do Pitangui, Minas Gerais, constituem elementos importantes para compreender a inserção do casal na sociedade brasileira.

As referências ao Serbian Relief Fund e à atuação assistencial de Margaret em Onça acrescentam dimensões humanitárias e religiosas à narrativa.

Por outro lado, algumas questões permanecem em aberto, especialmente a trajetória militar de Harold, a participação de Margaret nas iniciativas de assistência durante a Primeira Guerra Mundial e as circunstâncias da morte de Clara.

Essas lacunas não impedem a construção de uma narrativa histórica inicial, mas indicam os caminhos para o aprofundamento da pesquisa.

A história do Major Harold Ralph Gotto e de sua família é, assim, uma história de conexões entre a Inglaterra e o Brasil, entre a atividade empresarial, a guerra e a vida comunitária, cuja reconstrução continua a ser enriquecida pelos documentos encontrados.

Cemitério de Sant'Ana - Onça do Pitangui


Referências bibliográficas — Major Harold Ralph Gotto e família 

Artigos e publicações históricas
CVETKOVSKI, Vladimir. The British military hospitals in Macedonia during the First World War. Prilozi, Skopje, v. 37, n. 1, p. 85-90, 2016. DOI: https://doi.org/10.1515/prilozi-2016-0010.

YAMEY, Adam. A lady in Hampstead and Boy George. Adam Yamey’s Blog, 4 dez. 2021. Disponível em: https://adam-yamey-writes.com/2021/12/04/a-lady-in-hampstead-and-boy-george/. Acesso em: 1 nov. 2026.

Registros genealógicos
FAMILYSEARCH. Major Harold Ralph Gotto (1868–1957). Árvore genealógica e registros biográficos. Disponível em: https://ancestors.familysearch.org/en/L1Q6-7NL/major-harold-ralph-gotto-1868-1957. Acesso em: 1 nov. 2026.

FAMILYSEARCH. Major Harold Ralph Gotto (1868–1957). Árvore genealógica e registros biográficos. Ids: L1Q6-7NL, L1QW-QPD. Disponível em: https://www.familysearch.org/pt/tree/pedigree/landscape/L1Q6-7NL . Acesso em: 1 nov. 2026.

MYHERITAGE. Margery Vernon Griffin (Gotto) — Young Web Site. Perfil genealógico. Disponível em: https://www.myheritage.com/. Acesso em: 1 nov. 2026.

MYHERITAGE. Harold Ralph Gotto — registro de falecimento. England and Wales Death Index, 1837–2005. Disponível em: https://www.myheritage.com.br/research/collection-10444/england-wales-death-index-1837-2005?itemId=71647574&action=showRecord . Acesso em: 1 nov. 2026.

Registros funerários
FIND A GRAVE. Harold Ralph Gotto (1868–1957). Memorial nº 269338673. Higher Cemetery, Exeter, Devon, Inglaterra. Disponível em: https://www.findagrave.com/memorial/269338673/harold-ralph-gotto. Acesso em: 1 nov. 2026.

FIND A GRAVE. Margaret Vernon Griffin (1845–1924). Memorial nº 182611793. Hastings Cemetery and Crematorium, Hastings, East Sussex, Inglaterra. Disponível em: https://pt.findagrave.com/memorial/182611883/margaret_vernon-cotto#source . Acesso em: 1 nov. 2026.

Fontes documentais e registros locais
GOTTO, Margaret Vernon. Registro funerário de Margaret Vernon Gotto e Clara Gotto. Cemitério de Sant’Ana, Onça do Pitangui, Minas Gerais. Fotografias realizadas por Charles Galvão de Aquino em 2019. Acervo pessoal.

PITANGUY. Notícia sobre o falecimento de Mrs. Margarida Gotto. Pitangui, MG, jul. 1923. Transcrição reproduzida em perfil genealógico do MyHeritage.

Jornal o Pitanguy, julho 1923.

Referência sobre Edward Gotto
GRACE’S GUIDE TO BRITISH INDUSTRIAL HISTORY. Edward Gotto (1822–1897). Disponível em: https://www.gracesguide.co.uk/Edward_Gotto. Acesso em: 1 nov. 2026.


Charles Galvão de Aquino

Historiador — Registro Profissional nº 343/MG 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

FUNERAL DA PORCA

SERTÃO DO PITANGUI XVIII

O Funeral da Porca no Sertão do Pitangui (1798)

Entre os registros jurídicos do século XVIII conservados no Arquivo Histórico de Pitangui, encontramos o curioso caso de Ignácia Maria do Nascimento contra Antônio Rodrigues Galvão, descrito em um libelo que mistura elementos de ação criminal e cível. O documento revela não apenas um litígio entre vizinhos, mas também aspectos do cotidiano rural, das formas de propriedade e da economia local no período colonial.

No ano de 1798, a rotina rural da Fazenda Velha, no distrito de Santo Antônio do Rio São João Acima, hoje Igaratinga/MG, termo da vila de Pitangui, foi abalada por um litígio que ganharia contornos de crônica policial. A autora, Ignácia Maria do Nascimento, mulher de mais de quarenta anos de vida no mesmo pedaço de terra herdado e cultivado por sua família, decidiu levar ao tribunal uma queixa grave contra seu vizinho, Antônio Rodrigues Galvão.

A discórdia começou quando Antônio adquiriu terras vizinhas ao sítio — “místicas”, isto é, misturadas ou contíguas — pertencentes ao alferes Antônio de Magalhães Portilho. Segundo a queixa, o novo vizinho passou a “lhe invejar” o sítio e a causar-lhe desgostos e prejuízos deliberados.

A acusação mais impactante dizia respeito a uma porca parida com nove leitões, que, segundo Ignácia, teria sido “maliciosamente” morta por ordem do réu. A carne, acusava ela, foi levada para a casa de Galvão, servida a seus escravos e até transformada em sabão, enquanto os leitões, ainda tenros, morreram sem a mãe. Avaliava o prejuízo em quatro oitavas de ouro — sem contar o lucro futuro que poderia obter com a criação dos animais.

A autora Ignácia também o acusava de mandar matar, a pauladas, um bezerro que uma de suas vacas estava criando, resultando na morte imediata do animal. A estimativa do dano era de uma oitava de ouro. Além disso, afirmava que Galvão teria arrasado o valo (cerca) de sua chácara, permitindo a entrada de porcos e gado que devastaram a plantação de mandioca, com perda suficiente para produzir, no mínimo, duas oitavas de ouro em farinha.

Calculava todos os prejuízos em oito oitavas de ouro e pedia ao juiz que o réu fosse condenado a indenizá-la, pagar o dobro pelo valor e ainda responder criminalmente pelas mortes dos animais, cuja penas são impostas aos que matam porcos e gados alheios e os comem, e nas custas por todo o sobre dito da verdade.

A legislação da Coroa portuguesa buscava proteger a propriedade e a subsistência das famílias. Quem caçasse com crueldade ou matasse animais de outrem deveria ressarcir o triplo do valor e, em certos casos, podia ser degredado para a África. Na época, vigoravam no Brasil as Ordenações Filipinas (1603), que determinavam punições severas para danos à propriedade rural.

No papel, tratava-se de penas severas; na prática, nem sempre se aplicavam de modo eficaz. O caso de Pitangui parecia um exemplo pronto para a aplicação dessas normas. Assim, a acusação de Ignácia, se provada, não implicaria apenas compensação financeira, mas poderia colocar Galvão sob ameaça de punição criminal exemplar. Mas a justiça tem seus desvios.

O embate judicial prometia ser feroz, e de fato foi. Porém, nos autos, Antônio Rodrigues Galvão conseguiu reverter a acusação. Testemunhas e provas apresentadas indicaram que a narrativa da autora não se sustentava: o bezerro, por exemplo, teria sido abatido e consumido por ela própria, e não pelo réu.

Além disso, Galvão alegou em sua defesa que a porca era tão daninha que costumava furar as paredes do seu paiol, invadir o depósito e comer o milho. Assim, a história, que começou como denúncia de crueldade e hostilidade de vizinhança, transformou-se em um jogo de versões no qual a credibilidade de Ignácia se esfarelou, recaindo sobre ela a acusação de caluniar com malícia e falsidade suas versões iniciais.

As próprias Constituições (Título X) advertiam sobre a gravidade dos juramentos falsos em juízo, registrando que: “Quem jura falso em Juízo, ofende a Deus, ao Juiz e à parte; perturba a reta administração da Justiça, destrói o maior fundamento do comércio humano e perverte a verdade e a inteireza dos Tribunais, pelo que é justo que se castigue com maior severidade.” O valor de $300 (trezentos réis) foi pago por Ignácia a título de “Juramento de Calúnia”, uma das custas processuais impostas no desfecho do processo.

 Ao final, o juiz deu sentença contrária à autora: por não apresentar provas convincentes de nenhuma das acusações, entendeu que fora “injusto e malicioso o Libelo da Autora, condenando a mesma nas custas processuais em três dobro, à vista do exposto que lhe conferia”.

Assim, no sertão pitanguense de 1798, o funeral da porca — e as exéquias do bezerro — não resultaram na punição de um crime comprovado, mas no sepultamento de uma causa malograda. Preservado nos arquivos, o episódio ilumina a vida rural e os conflitos de vizinhança no interior das Minas setecentistas, onde honra, posse e subsistência se entrelaçavam nas veredas do tribunal do Sertão do Pitangui.

Mais do que uma disputa entre vizinhos, o documento conserva informações preciosas sobre a economia rural de Pitangui, onde a criação de porcos, o cultivo da mandioca e a produção artesanal de farinha e sabão compunham o sustento e a renda das famílias. Também expõe a prática concreta do direito colonial, em que indenizações eram calculadas em ouro e o dano moral se confundia com o prejuízo material.

Hoje, no Instituto Histórico de Pitangui (IHP), fontes como esta permitem reconstruir o cotidiano, os embates de vizinhança e as estratégias jurídicas que marcavam o sertão das Minas Gerais no século XVIII, aproximando-nos da realidade concreta que se esconde por trás da linguagem formal da justiça colonial. 

Referências

Pesquisa: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

PORTUGAL. Ordenações Filipinas. 1603. Livro V, Título LXXVIII.

PORTUGAL. Constituições. Dos juramentos falsos em juízo, e penas dele. Título X. p. 322.

INSTITUTO HISTÓRICO DE PITANGUI – IHP. Fundo CMP, Seção Justiça. Libelo Crime e Cível: Inácia Maria do Nascimento (autora) vs. Antônio Rodrigues Galvão (réu), 1798. Cx. 140, Doc. 018.

IHP – Revista do Instituto Histórico de Pitangui (Ano 1 – 2022/2023)

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

AÇÕES DE ALMA

AÇÕES CÍVEIS EM PITANGUI XVIII - MG

AÇÕES DE ALMA EM PITANGUI: A PALAVRA COMO CRÉDITO, A FÉ COMO PROVA

No sertão das Minas setecentistas, particularmente na Vila de Pitangui e em seu termo, que incluía regiões como Santana do Rio de São João Acima (atual Itaúna/MG), a dinâmica econômica não se estruturava prioritariamente sobre a moeda, mas sobre relações de confiança, reputação e palavra empenhada. A escassez de numerário circulante impunha limites concretos às transações comerciais, exigindo da sociedade local a construção de mecanismos alternativos de crédito.

É nesse contexto que emergem as chamadas “Ações de Alma”, também conhecidas como “Juramentos d’Alma”, instrumentos jurídicos sumários que articulavam direito, moral cristã e prática econômica.

Nessas ações, o processo não se resolvia por provas materiais robustas, mas pela centralidade do juramento. O réu era citado para comparecer em audiência e jurar sobre a veracidade dos fatos. Caso comparecesse e prestasse o juramento, sua palavra passava a determinar o desfecho da causa. O juiz não julgava com base em evidências no sentido moderno, mas acatava o juramento como verdade jurídica.

Se o réu não comparecesse, o mecanismo se invertia: o autor jurava e, por esse juramento, o réu era condenado à revelia.

Assim, a sentença não emergia de uma investigação probatória aprofundada, mas de um princípio estruturante daquele sistema — quem jurava, decidia.

Esse modelo jurídico não pode ser compreendido isoladamente. Ele estava profundamente ancorado na cultura religiosa da época. O juramento d’alma carregava um peso que ultrapassava o tribunal: implicava o risco da condenação eterna. Mentir sob juramento não era apenas um ilícito — era um pecado com consequências espirituais.

Desse modo, o temor do juízo divino e o valor da honra social operavam como mecanismos de coerção eficazes, garantindo a funcionalidade do sistema. A palavra empenhada tornava-se, simultaneamente, prova, contrato e moeda.

As Ações de Alma, portanto, não eram apenas instrumentos jurídicos, eram peças centrais de uma engrenagem maior, que sustentava as relações de crédito em uma economia marcada pela escassez monetária. Promessas de pagamento, dívidas, compras e vendas circulavam menos em ouro físico e mais na credibilidade dos indivíduos.

No termo de Pitangui esse sistema revela uma sociedade em que: a justiça se confundia com a moral cristã, o direito dialogava diretamente com o direito canônico e a economia se apoiava na confiança como ativo fundamental.

Mais do que um procedimento jurídico, as Ações de Alma expõem uma lógica social em que a verdade não era provada — era jurada.

E, nesse juramento, não estava apenas em jogo o resultado de uma causa, mas a própria alma de quem falava.

Se você quiser aprofundar esse tema, conheça as pesquisas:

– Ações de Alma e de Crédito: o poder da palavra em Pitangui (1709–1799)
Disponível em:
https://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/pghis/DissertacaoCharlesAquino.pdf

– Práticas creditícias: dinâmicas de poder entre libertos em Pitangui no século XVIII
Disponível em:
https://revistagalo.com.br/edi%C3%A7%C3%B5es/edi%C3%A7%C3%A3o-011/12-praticas-drediticias/

– Comerciantes poderosos: o poder da palavra como moeda circulante no sertão do Pitangui setecentista.

 Disponível em: https://historiaeeconomia.emnuvens.com.br/he/article/view/374

– Sincretismo, redes de fé e crédito entre libertos no sertão do Pitangui setecentista
Disponível em:
https://www.revista.ueg.br/index.php/revistahistoria/pt_BR/article/view/16213

 

Referência:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

Nota sobre a imagem

Esta HQ foi desenvolvida com apoio de ferramentas de Inteligência Artificial, a partir de textos fundamentados em pesquisa histórica e fontes documentais. As imagens utilizadas possuem caráter meramente ilustrativo, não correspondendo a representações fiéis de pessoas, locais ou eventos específicos.

O objetivo é traduzir, em linguagem visual, interpretações históricas baseadas em documentação e estudos acadêmicos, contribuindo para a divulgação do conhecimento de forma acessível e crítica.

 

quinta-feira, 25 de julho de 2024

PADRE BELCHIOR

O testamento do Padre Belchior Pinheiro de Oliveira, registrado em Pitangui no dia 14 de junho de 1856, é um documento de grande importância histórica que revela tanto aspectos pessoais quanto sociais do testador e de sua época. Preservado no acervo do Instituto Histórico de Pitangui (IHP) em Minas Gerais, este testamento é um registro valioso, que oferece percepções profundas sobre a vida, as relações e as condições sociais do século XIX na região.

Este documento não apenas lança luz sobre os desejos e legados pessoais do Padre Belchior, mas também proporciona uma visão detalhada das normas sociais, econômicas e culturais de sua época. Através dele, podemos entender melhor a estrutura da sociedade pitanguiense, incluindo aspectos como a distribuição de propriedades, o papel da igreja e as dinâmicas familiares e comunitárias.

 O testamento é autenticado por Manoel Guilherme da Silva Capanema, Tabelião público do Judicial e notas. Redigido em 4 de outubro de 1853, o testamento foi elaborado três anos antes do falecimento de Belchior, ocorrido em 12 de junho de 1856. O registro data de 21 de agosto de 1856, oferecendo legitimidade e formalidade ao documento. O período entre a redação e a execução do testamento mostra a preocupação do testador com seu legado e a preparação para a morte iminente.

Herdeiros

Júlia Angélica de Oliveira: Reconhecida como filha, recebe duas terças partes dos bens.

Miguel Rodrigues Braga: Compadre e amigo do testador, recebe uma terça parte dos bens. O reconhecimento da amizade e cuidado oferecido por Miguel e sua esposa, Dona Angélica Maria da Silva, é explícito.

Desejos Fúnebres

O testador expressa seu desejo por um enterro sem pompas, mas com decência, conforme os costumes locais. Miguel Rodrigues Braga é encarregado de cuidar dos sufrágios pela alma do testador, com a instrução específica de repartir mil réis com os pobres da freguesia no dia ou no dia seguinte ao enterro.

A preocupação com os sufrágios e a repartição de bens com os pobres reflete a religiosidade e a preocupação com a salvação da alma, comuns no contexto católico do século XIX.  A simplicidade desejada para o funeral indica uma postura de humildade e adequação aos costumes locais. 

Testamenteiros

Cada testamenteiro é indicado para garantir a execução fiel das disposições testamentárias, recebendo cem mil réis por seus serviços.

 Primeiro Testamenteiro: Miguel Rodrigues Braga, com quatro anos para prestar contas.

 Segundo Testamenteiro: Antônio da Silva Cardoso.

Terceiro Testamenteiro: Manoel Bahia da Rocha Júnior.

As disposições testamentárias revelam fortes laços familiares e de amizade. O reconhecimento de Júlia Angélica como filha, demonstra uma estrutura familiar ampliada e baseada em afeto e cuidado. A inclusão de compadres e amigos próximos como herdeiros e testamenteiros reflete a importância das relações sociais e comunitárias na época.

 O testamento busca assegurar que o legado de Belchior seja preservado de acordo com suas vontades, demonstrando cuidado com a memória e o impacto de sua vida na comunidade. O documento é meticulosamente registrado e autenticado, seguindo as formalidades legais da época. A precisão na datação e na assinatura do tabelião confere validade jurídica ao testamento.

O testamento do Padre Belchior Pinheiro de Oliveira é um rico documento histórico que oferece esclarecimento sobre as relações familiares, sociais e culturais do século XIX em Pitangui. Através das disposições testamentárias, é possível perceber a importância dos laços de amizade, a religiosidade e a preocupação com a comunidade. A formalidade e a precisão do documento refletem a seriedade com que tais questões eram tratadas na época, garantindo que os desejos do testador fossem respeitados e cumpridos.

Pertencente ao acervo do Instituto Histórico de Pitangui (IHP) em Minas Gerais, este testamento é um registro valioso que está sob a proteção e cuidados da entidade. O IHP desempenha um papel fundamental na preservação da memória histórica da região, garantindo que documentos como este estejam acessíveis para pesquisa e estudo. Sob a guarda do Instituto Histórico de Pitangui, este documento continua a ser um recurso essencial para o entendimento da história local e das dinâmicas sociais da época. O cuidado com este testamento reflete o compromisso do IHP em salvaguardar a memória histórica, permitindo que futuras gerações possam estudar e compreender melhor o passado de Minas Gerais.

 Narrada em áudio! Imperdível!

 

Referências:

Realização, arte e roteiro: Historiador Charles Aquino

Acervo: IHP – Instituto Histórico de Pitangui, Minas Gerais.

Transcrição da certidão do testamento do Padre Belchior Pinheiro de Oliveira:

Sílvia Buttros e Regina Moraes Junqueira da Revista da ASBRAP/2022 nº29.

 

sexta-feira, 19 de julho de 2024

MARIA TANGARÁ

O testamento de Maria Felisberta da Silva, mais conhecida como Maria Tangará, datado de 27 de novembro de 1836 e apresentado em 26 de janeiro de 1837, oferece uma janela detalhada para a sociedade brasileira do século XIX, particularmente no que concerne à estrutura familiar, relações de propriedade e prática religiosa.

Maria Felisberta se identifica como filha legítima de Miguel Gonçalves Palmeira e Dona Anna Tereza da Silva, naturais de Congonhas de Sabará. Ela destaca que não recebeu herança de seus pais, sugerindo que sua situação econômica era independente do legado parental. Casada com o Sargento Mor Ignacio Joaquim da Cunha, Maria lista nove filhos, incluindo Delfina, Ildefonso, Pulquéria, Gomes, Lino, Bazílio, Matildes, Porcina e Balbina. Esta estrutura familiar numerosa é típica da época, refletindo a importância da família extensa na sociedade colonial.

Herança e Distribuição de Bens.

Maria Felisberta faz um detalhamento minucioso das disposições de sua "terça", parte da herança que podia ser livremente distribuída conforme a legislação da época. Este aspecto do testamento é crucial para entender as relações de propriedade e a importância dos bens móveis e imóveis, refletindo a complexidade da sociedade escravocrata e patriarcal da época, incluindo escravos, que eram uma parte significativa da riqueza.

Filhos e Netos: Ela distribui bens tanto entre seus filhos quanto entre seus netos, estabelecendo claramente os herdeiros e suas partes na herança. A presença de testamenteiros – seu marido, seu filho Ildefonso e seu filho Bazílio – indica a necessidade de garantir a execução fiel de suas vontades.

Escravos: A distribuição de escravos como parte da herança evidencia a mercantilização de pessoas, prática comum na época. Escravos como Rufino, Tereza, Luíza e outros são mencionados como bens significativos a serem legados aos filhos.

Bens Materiais: Os escravos mencionados no testamento são destacados como valiosos bens patrimoniais. Além dos cativos, Maria Felisberta lega quantias de dinheiro, animais (cavalos, éguas, vacas) e objetos pessoais (arreios e estribos de prata), refletindo a diversidade de bens que compunham a riqueza pessoal.

Práticas Religiosas

Maria se declara católica romana, fiel à fé em que viveu. Ela deseja um funeral simples, no hábito de São Francisco, e solicita um oitavário de missas para sua alma. Este aspecto do testamento ressalta a profunda influência da religião na vida cotidiana e nas disposições finais das pessoas durante o século XIX.

Testamenteiros e Prazos

Maria designa três testamenteiros e concede a eles doze anos para prestar contas, com a possibilidade de prorrogação por mais três anos. Esta cláusula reflete a complexidade e a extensão dos processos de inventário e partilha na época.

 

Aspectos específicos do testamento de Maria Felisberta da Silva.


Contexto da Escravidão no Século XIX

No Brasil do século XIX, a escravidão era uma instituição central na economia e na sociedade. Os escravos eram fundamentais para a produção agrícola, mineração e serviços domésticos. Eles eram considerados propriedade dos seus senhores e frequentemente incluídos em heranças como bens móveis.

Escravos Mencionados no Testamento

1. Rufino e Tereza: Rufino e Tereza são mencionados como bens de grande valor, sendo legados ao filho Lino por seus bons serviços. A escolha de Lino como beneficiário indica que ele tinha uma relação especial com esses escravos, possivelmente baseada em confiança e utilidade.

2. Luiza e Felicidade, Antonia e Narciza, André: Luiza cabra e sua filha Felicidade, Antônia com sua filha Narciza, e André são legados à filha Delfina. A divisão de escravos com suas famílias demonstra uma tentativa de manter esses laços intactos, embora sob a propriedade de um novo senhor.

3. Ignacia, Felipe e Maria: A filha Matildes recebe a crioula Ignacia, seu marido Felipe, e a crioulinha Maria. Esta disposição mostra a continuidade da família escrava sob a nova senhora, Matildes.

4. Joaquina Conga, Victoria, Rita Mulata e Luis Moçambique: Estes escravos são destinados à filha Porcina, evidenciando a prática de transferência de escravos entre familiares como forma de assegurar a continuidade do trabalho e da manutenção econômica.

5. Jacintho Mina: Um escravo adicional, Jacintho Mina, é especificamente mencionado como legado a Matildes, reforçando sua posição de beneficiária importante no testamento.

A Economia Rural da Época

A menção a animais como cavalos, éguas e vacas no testamento de Maria Felisberta destaca a importância da pecuária na economia rural mineira do século XIX. Os animais eram essenciais não apenas para o trabalho agrícola, mas também para transporte e como indicadores de status social.

Cavalos e Éguas: Legados a filhos e filhas, indicam a importância da mobilidade e do trabalho agrícola. O cavalo de sela para Delfina e os potros para Pulquéria são exemplos de como esses animais eram valiosos.

Vacas: As vacas eram fundamentais para a produção de leite e derivados, essenciais na dieta e economia doméstica. A distribuição de várias vacas entre os filhos mostra a intenção de Maria em garantir a sustentabilidade econômica de cada um.

 Bens Materiais e Econômicos

Maria Felisberta também legou quantias significativas de dinheiro a seus filhos e netos, refletindo uma economia monetária em desenvolvimento, além da tradicional economia baseada em terras e bens móveis. Quantias como quatrocentos mil réis para Ildefonso e Pulquéria, e trezentos mil réis para Lino, indicam a tentativa de prover recursos financeiros imediatos.

Religião nas Disposições Testamentárias

Maria se declara católica romana e deseja um funeral simples, no hábito de São Francisco. Este pedido reflete a humildade e devoção religiosa, comuns entre os membros das irmandades religiosas. A solicitação de um oitavário de missas sublinha a crença na importância das orações para a alma dos falecidos.

 Participação das Irmandades

A menção ao hábito de São Francisco indica a afiliação de Maria a uma irmandade franciscana, comum na sociedade colonial, onde as irmandades desempenhavam um papel importante na vida religiosa e social. Elas forneciam suporte espiritual e, muitas vezes, material, para seus membros.

 

Considerações Finais

O testamento de Maria Felisberta da Silva é um documento multifacetado que revela muito sobre a vida e as práticas da elite mineira do século XIX. Através da análise de aspectos específicos como a vida dos escravos, a economia rural e o papel da religião, podemos compreender melhor as complexas interações sociais e econômicas da época.

O testamento de Maria Felisberta da Silva não é apenas um documento legal; é um testemunho histórico que revela as dinâmicas familiares, econômicas e sociais de uma mulher da elite mineira do século XIX. Ele apresenta como as relações de poder e propriedade estavam intrinsecamente ligadas à posse de escravos e à gestão de uma vasta gama de bens móveis e imóveis. Além disso, destaca a influência da religião na vida cotidiana e nas disposições finais de uma pessoa, permitindo uma compreensão mais profunda das complexidades da sociedade colonial brasileira, oferecendo uma compreensão sobre a vida privada e os valores culturais da época.

 

Apresentação do Testamento de Maria Tangará

Em 26 de janeiro de 1837, foi apresentado às autoridades um testamento cozido e lacrado de Maria Tangará, como declarado no rótulo. Após uma avaliação cuidadosa, não foram encontradas dúvidas ou irregularidades no documento, levando à ordem de seu cumprimento e registro.

Este documento histórico foi formalizado com o termo de aceitação do primeiro testamenteiro, assinado por Ignacio Joaquim da Cunha, uma figura relevante da época. O ato de registro de testamentos como este é fundamental para a preservação da história e das tradições de Pitangui, permitindo um vislumbre das práticas legais e sociais do período.

A aceitação e cumprimento deste testamento evidenciam a importância dos procedimentos legais na época, refletindo a organização e seriedade com que assuntos de herança e última vontade eram tratados. Além disso, revela a relevância de figuras como Ignacio Joaquim da Cunha na manutenção da ordem e cumprimento das leis locais.

Eis o trecho do documento original:

“Aos vinte e seis de janeiro de 1837 me foi apresentado este Testamento cozido e lacrado como no rótulo se declara, e não achando nele dúvida, faça mando que se cumpra e registre. Pitangui 26 de Janeiro de 1837... Termo de aceitação do 1º Testamenteiro assinado por Ignacio Joaquim Da Cunha aos 26 de Janeiro de 1837”

Este trecho do testamento, datado de 1837, oferece um vislumbre das práticas jurídicas e sociais da época em Pitangui. A formalidade do documento e a assinatura de Ignacio Joaquim da Cunha, figura de destaque, sublinham a seriedade com que os assuntos de herança eram tratados. Este evento é um exemplo claro de como os registros históricos são essenciais para compreender e valorizar a história, fornecendo detalhes valiosos sobre a vida, as pessoas e as práticas de tempos passados. Além disso, a existência e a preservação desses documentos históricos são cruciais para entendermos as tradições e a memória coletiva de nossa comunidade.

Testamento disponível em Resgate da História 

Referências:

Realização, arte e roteiro: Historiador Charles Aquino

Pesquisa e Paleografia: Historiador Gilson Magela Campos (In Memoriam) em 2010.

Acervo: IHP – Instituto Histórico de Pitangui, Minas Gerais.

 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

ANA MARIA OLIVEIRA

O testamento de Ana Maria de Oliveira, datado de 22 de agosto de 1800, é um documento que oferece uma visão rica da vida e dos costumes da época em que foi redigido, na freguesia de Pitangui, no bispado de Mariana, Minas Gerais. Pitangui foi uma das primeiras vilas do estado de Minas Gerais, com um papel importante durante o período colonial brasileiro, especialmente no contexto da mineração de ouro.

Ana Maria de Oliveira, filha legítima de Antônio José Maya e de Ana Maria de Oliveira, ambos já falecidos, era natural da freguesia de Pitangui e residente no sítio Capão, termo de Vila de Pitangui. Casada com Theodósio Soares Louzada, ela teve onze filhos, sendo eles: Ana (casada com Antônio Jose de Magalhães), Angélica (casada com José Antônio da Silva), Maria (casada com Luiz Severino de Carvalho), Theodósio, Pedro, Domingos, Antônio, Luiz, Tomás, João e José.

No testamento, Ana Maria de Oliveira nomeia quatro de seus filhos como testamenteiros: Theodósio Soares de Oliveira, Domingos Francisco Soares, Tomás de Aquino Soares e Antônio Francisco Soares, concedendo-lhes amplos poderes para administrar seus bens e estipulando prazos para prestação de contas, com uma recompensa de dez mil réis pelo trabalho.

Após o pagamento de suas dívidas e legados, Ana Maria deixa doze mil réis para suas netas Angélica (filha de José Antônio da Silva e Angélica Maria do Espírito Santo) e Maria (filha de Antônio José de Magalhães e Ana Vieira). Ela expressa o desejo de ser sepultada na Capela de Nossa Senhora Santa Ana no Arraial da Onça, ou na capela ou igreja mais próxima, caso falecesse em outro lugar. Seu corpo deveria ser envolto no hábito de Nossa Senhora do Monte do Carmo, acompanhado pelo reverendo pároco ou capelão, com missa de corpo presente e esmola de uma oitava de ouro.

Ana Maria também solicita que sejam ditas sessenta missas na cidade do Rio de Janeiro, sendo cinquenta por sua alma e dez pelas almas de seus pais. Ela declara ainda uma doação ao Bispo de Mariana de doze oitavas de ouro para distribuição, mencionando uma restituição que devia sem saber a quem. 

O testamento foi aprovado por José da Silva Cruz, tabelião, na fazenda da Restinga, com testemunhas presentes para validar o documento. A abertura oficial do testamento ocorreu em 15 de setembro de 1800, na presença de autoridades locais.

Este testamento é um reflexo da organização familiar e social da época, destacando a importância da religião e das práticas católicas no Brasil colonial. Os detalhes fornecidos sobre herdeiros, disposições patrimoniais e práticas funerárias oferecem uma janela para a vida cotidiana e valores da sociedade mineira do século XIX.

O documento revela aspectos da administração de bens e responsabilidades atribuídas aos herdeiros, demonstrando um sistema complexo de gestão e transmissão de patrimônio. A nomeação de múltiplos testamenteiros e a provisão de incentivos para a execução fiel das vontades da testadora são indicativos de um cuidado meticuloso com a continuidade e proteção dos interesses familiares.

Em conclusão, o testamento de Ana Maria de Oliveira é um valioso registro histórico que proporciona insights sobre a cultura, religião e estrutura familiar da sociedade brasileira colonial. A análise expandida deste documento nos permite apreciar a riqueza de detalhes e a importância das tradições na vida dos indivíduos da época, bem como as complexidades envolvidas na gestão e distribuição de bens e responsabilidades após a morte.

Nestas Minas do Sertão de Pitangui

 

Testamento disponível em Resgate da História 
Referências:

Realização, arte e roteiro: Historiador Charles Aquino

Pesquisa e Paleografia: Áureo Nogueira da Silveira e Dr. Alan Penido

Acervo: IHP – Instituto Histórico de Pitangui, Minas Gerais